O que muda, na prática

Até agora, o anúncio em plataformas de streaming seguia a lógica clássica da TV: um comercial de trinta segundos, exibido em um intervalo, que o espectador assiste e segue para a próxima cena. A publicidade interativa quebra esse roteiro.

Na televisão conectada, durante a exibição do anúncio, surge um botão na tela. Ao clicar usando o controle remoto, o espectador recebe automaticamente, no celular vinculado à sua conta, um link direto da marca anunciante. A notificação também fica salva no aplicativo para acesso posterior, ou seja, mesmo quem não interage no momento, pode retomar o contato depois.

Para quem não tem um celular associado à conta, a solução é um QR Code exibido na própria tela, lido pela câmera do smartphone. Já em celulares e computadores, o caminho é direto: o clique no anúncio leva o usuário imediatamente ao destino escolhido pela marca, seja um site institucional, uma página promocional, um e-commerce ou uma landing page específica.

Outro ponto relevante: a funcionalidade pode ser aplicada a campanhas que a marca já tem pronta, sem exigir produção criativa adicional, o que reduz a barreira de entrada para quem já investe em vídeo publicitário e quer simplesmente ativar esse novo canal.

Por que o Brasil entrou na lista prioritária

O recurso estreia oficialmente nos Estados Unidos e no Canadá em 1º de julho de 2026, e entra em fase de testes simultânea no Brasil e no México, uma decisão que não é acidental. Segundo Leo Khede, Diretor Sênior de Publicidade da Netflix para a América Latina, o alto nível de engajamento dos usuários da região foi determinante para a escolha dos dois países como mercados-piloto.

Os dois países reúnem, juntos, mais de 63 milhões de assinantes ativos no plano com anúncios, uma base de audiência relevante o suficiente para validar o formato antes de uma expansão maior.

Para o executivo, a lógica do formato resume bem para onde a publicidade em vídeo está caminhando: cada clique se torna um sinal real de interesse do consumidor, que a marca pode usar para entender melhor seu público, ajustar campanhas e medir resultado com uma precisão que formatos tradicionais de TV nunca conseguiram entregar.

O que isso representa para quem planeja mídia

Para profissionais de marketing e mídia, a publicidade interativa resolve um problema antigo da propaganda em vídeo: a dificuldade de medir o que acontece depois do anúncio. Historicamente, o comercial de TV e em boa parte, o comercial de streaming tradicional, gerava reconhecimento de marca, mas pouca visibilidade sobre a ação concreta do espectador.

Com o novo formato, a jornada entre assistir e agir encurta drasticamente. Isso abre pelo menos três frentes de oportunidade imediatas:

  • Geração de leads qualificados diretamente a partir de um momento de entretenimento, sem depender de redes sociais ou buscadores.

  • Mensuração de intenção em tempo real, permitindo ajustes de campanha mais rápidos do que os ciclos tradicionais de mídia em TV.

  • Reaproveitamento de criativos já existentes, já que a Netflix afirma não exigir produção adicional para ativar o recurso.

O ponto de atenção que poucos estão discutindo

Toda nova tecnologia publicitária tem uma curva de adoção: os primeiros anunciantes a testar formatos como esse, historicamente, colhem um benefício extra, custo de mídia mais competitivo, atenção do consumidor ainda não saturada pelo formato, e visibilidade editorial pelo simples fato de estarem entre os pioneiros.

Aconteceu com os primeiros anúncios em redes sociais, aconteceu com os primeiros formatos de vídeo vertical, e tudo indica que vai se repetir com a publicidade interativa em streaming. A pergunta que fica para quem planeja mídia em 2026 não é apenas “devo testar esse formato?”, mas “quanto tempo de vantagem competitiva estou disposto a deixar na mesa enquanto espero o formato amadurecer?”.

O streaming como mídia de performance, não apenas de marca

Por muito tempo, o investimento em streaming foi tratado, dentro do planejamento de mídia, como uma ferramenta de topo de funil: reconhecimento, lembrança, associação de marca a um momento de entretenimento de qualidade. Métricas de performance, cliques, leads, vendas diretas, ficavam reservadas a buscadores e redes sociais.

A publicidade interativa muda essa fronteira. Ao permitir que o espectador saia do comercial diretamente para uma página de conversão, a Netflix está, na prática, posicionando seu inventário publicitário para competir também por orçamentos de performance, não apenas pelos orçamentos de branding que tradicionalmente reservava. Isso tende a intensificar a disputa por espaço publicitário dentro da plataforma, à medida que mais setores enxergam a oportunidade de medir retorno de forma mais direta.

Para anunciantes que já trabalham com mídia paga em múltiplos canais, o recado prático é claro: vale a pena observar de perto os primeiros resultados dos testes em curso no Brasil e no México, porque eles vão indicar se esse formato se consolida como uma terceira frente relevante de geração de demanda, ao lado de busca e redes sociais ou se permanece como um recurso complementar dentro de campanhas de marca.

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